segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Cabeça feita




 Leandro Acácio e Sérgio L. Nastasi - outubro 2012

É tudo tão profundamente
que a mente mergulha
de cabeça

Averiguação submersa
espie sempre o mergulho
não corra a cabeça na pedra
não caia feito um entulho
cuidado com o gái de pau
não seja um martelo sem cabo
coitado se emergir no rubro.

Cuidado com a natação,
é rasa a cabeça não feita.
Bata a mão quando chegar,
nade muito pra sair do lugar,
pois nada é muito
pra quem não quer
se afogar.

domingo, 14 de outubro de 2012

Vagamente





Você desapareceu
lentamente

e continua
vagamente
a desaparecer

empoeirada memória:
lembrete
a esvaecer

Você desaparecerá
simplesmente

e continuará
certamente
a viver

querida lembrança:
contente
a dissolver

Você aparecerá
noutro tempo

e em lugar do sumiço
será leve lembrar a senhorita
não aflita por isso,
mas porque somos lentos


domingo, 2 de setembro de 2012

Areia











Poema de Ana Borm, 
Leandro Acácio 
 e Sérgio Lima Nastasi 
Setembro 2012


Sinto-me como um rosto de areia
Com os olhos muito negros
E a boca tão obscura
Que a secura e o esfarelar
De um ser ao sol onde me deito
Já são como uma candeia
Que ninguém pode descansar
Seu granulado peito

Por isso espraio-me ao vento
Na espreita de um estado

Seja ele um corpo lento  

Seja ele desalmado

E quando canto um sentimento

É simplesmente por cantar

Tenho a mão no parapeito

Tenho a voz pousada ao mar

Procuro a resposta no silêncio da alma
Refiro-me ao vazio não preenchido

Entretanto no peito, que já não acalma

Faço-me forte com a alta maré

Ainda canto enquanto deito

Ainda espero enquanto creio

É simplesmente por acreditar

Que minhas dores levo ao mar


 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ouça-me


 
Ouça-me
A olhar minha boca

Para ver
Meus lábios trêmulos

Que doravante
Simples
E secos

Amplos
Como os ecos

Serão tristes
Mas meigos

Com sorrisos
Mais discretos



(Sérgio L. Nastasi - Agosto 2012)

domingo, 5 de agosto de 2012

Foucault e a moral dos prazeres


          A atividade sexual e as noções que acompanham sua existência, a partir de recortes históricos à maneira arqueológica, compõem o objeto de pesquisa de Michel FOUCAULT em sua História da Sexualidade. Ao analisarmos, ainda que sumariamente, os três tomos da referida obra — A vontade de saber, O uso dos prazeres e O cuidado de si —, temos “a moral dos prazeres” como seu aspecto central, que Foucault traça ao observar a literatura ocidental sobre a sexualidade, e a seguinte problemática: por que certos comportamentos sexuais são aceitos em determinadas épocas e regiões ao passo que em outras não? 
        Podemos tomar dois fragmentos abaixo como exemplo da produção de verdade a respeito do sexo e da formação de discursos que regulamentam a atividade sexual.

           “Existem, historicamente, dois grandes procedimentos para produzir a verdade do sexo.
           Por um lado as sociedades — e elas formam numerosas: a China, o Japão, a Índia, Roma, as nações árabes-muçulmanas — que se dotaram de uma ars erótica. Na arte erótica, a verdade é extraída do próprio prazer, encarado como prática e recolhido como experiência; não é por referência a uma lei absoluta do permitido e do proibido, nem a um critério de utilidade, que o prazer é levado em consideração, mas, ao contrário, em relação a si mesmo: ele deve ser conhecido como prazer, e portanto, segundo sua intensidade, sua qualidade específica, sua duração, suas reverberações no corpo e na alma. Melhor ainda: este saber deve recair, proporcionalmente, na própria prática sexual, para trabalhá-la como se fora de dentro e ampliar seus efeitos. Dessa forma constitui-se um saber que deve permanecer secreto, não em função de uma suspeita de infâmia que marque seu objeto, porém pela necessidade de mantê-lo na maior discrição, pois segundo a tradição, perderia sua eficácia e sua virtude ao ser divulgado. A relação com o mestre detentor dos segredos é, portanto, fundamental; somente este pode transmiti-lo de modo esotérico e ao cabo de uma iniciação em que orienta, com saber e severidade sem falhas, o caminhar do discípulo. Os efeitos dessa arte magistral, bem mais generoso que faria supor a aridez de suas receitas, devem transfigurar aquele sobre quem recaem seus privilégios: domínio absoluto do corpo, gozo excepcional, esquecimento do tempo e dos limites, elixir de longa vida, exílio da morte e de suas ameaças.
         Nossa civilização, pelo menos à primeira vista, não possui ars erotica. Em compensação é a única, sem dúvida, a pratica uma scientia sexualis. Ou melhor, só a nossa desenvolveu, no decorrer dos séculos, para dizer a verdade do sexo, procedimentos que se ordenam, quanto ao essencial, em função de uma forma de poder-saber rigorosamente oposta à arte das iniciações e ao segredo magistral, que é a confissão.
 
       Desde a Idade Média, pelo menos, as sociedades ocidentais colocaram a confissão entre os rituais mais importantes de que se espera a produção de verdade: a regulamentação do sacramento da penitência pelo Concílio de Latrão em 1215; o desenvolvimento das técnicas de confissão que vêm em seguida; o recuo, na justiça criminal, dos processos acusatórios; o desaparecimento das provações de culpa (juramentos, duelos, julgamentos de Deus); e o desenvolvimento dos métodos de interrogatório e de inquérito; a importância cada vez maior ganha pela administração real na inculpação das infrações — e isso às expensas dos processos de transação privada — a instauração dos tribunais de Inquisição, tudo isso contribui para dar à confissão um papel central na ordem dos poderes civis e religiosos. A própria evolução da palavra ‘confissão’ e da função jurídica que designou já é característica: da ‘confissão’, garantia de status, de identidade e de valor atribuído a alguém por outrem, passou à ‘confissão’ como reconhecimento, por alguém, de suas próprias ações ou pensamentos. O indivíduo, durante muito tempo, foi autenticado pela referência dos outros e pela manifestação de seu vínculo com outrem (família, lealdade, proteção); posteriormente passou a ser autenticado pelo discurso de verdade que era capaz de (ou obrigado a) ter sobre si mesmo. A confissão da verdade se inscreveu no cerne dos procedimentos de individualização pelo poder (...).

        Scientia sexualis contra ars erotica: sem dúvida. Não obstante, é preciso notar que a ars erotica não desapareceu completamente da civilização ocidental; nem mesmo ficou sempre ausente do movimento pelo qual se procurou produzir a ciência do sexual. Existiu, na confissão cristã, e sobretudo na direção espiritual e no exame de consciência, na procura da união espiritual e do amor de Deus, toda uma série de procedimentos que se aparentam com uma arte erótica: orientação, pelo mestre, ao longo de uma via de iniciação, intensificação das experiências até em seus componentes físicos, majoração dos efeitos através do discurso que os acompanha; os fenômenos de possessão e de êxtase, tão frequentes nos catolicismo da Contra-Reforma, foram, sem dúvida efeitos incontroláveis que extravasaram dessa técnica erótica imante à sutil ciência da carne. E é necessário perguntar se, desde o século XIX — e sob o fardo de seu positivismo decente — a scientia sexualis não funciona, pelo menos em algumas de suas dimensões, como uma ars erotica.  Essa produção de verdade, mesmo intimidada pelo modelo científico, talvez tenha multiplicado, intensificado e até criado seus prazeres intrínsecos. Diz-se frequentemente, que não fomos capazes de imaginar novos prazeres. Pelo menos, inventamos um outro prazer: o prazer da verdade do prazer, prazer de sabê-la, exibi-la, descobri-la, de fascinar-se ao vê-la, dizê-la, cativa e capturar os outros através dela, de confiá-la secretamente, desalojá-la por meio de astúcia; prazer específico do discurso verdadeiro sobre o prazer”.


 FOUCAULT, M. História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro, Graal, 1999, pp. 57-8 e 69. Tradução brasileira: Maria T. C. Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque.




quarta-feira, 18 de julho de 2012

O dia em que você me deu uma flor de camomila

Julho 2012 
Um conto em paragrafão.

          Você gostava daquele canto da casa em que ficava sozinha a pensar. Enfiava-se toda na velha rede de dormir, algodão já puído e um tanto mofado. O sol das três clareava a senhorita embocando-se pelas frestas, assim, compondo quatro pequenas raias amarelas em seu rosto. Qualquer proeza do sol pode ser o que há de mais espetacular num dia. Àquela altura, o horóscopo ainda era a seção do jornal que mais me divertia. Derrubava todo o café quando lia Leão. Ah, mas você também gargalhava a mil comigo nas linhas sobre o amor dos taurinos. Eles decifram uma semana inteira para nós. Essa gente é impossível! Todavia, na rede você tinha o rosto sereno e os olhos fechados. Talvez vadiasse com pensamentos mais pegajosos que outros do cotidiano. Ora, desejar um passeio fora do país não é o mesmo que pensar em pegar o trem. Mas será que você queria viajar? Estávamos tão bem na Vila América, perto de tudo: havia uma padaria tradicional, a biblioteca municipal, o bar do Aroldo, meu primo. Tudo isso era perfeito, nem precisávamos de mais nada na vida. É verdade que nunca mais peguei livros lá na biblioteca, pois suspeitaram que você tivesse moqueado Dom Quixote, os dois volumes da série Ouro! Eu poderia entregá-la porque encontrei um dos tomos dentro da caixa daqueles sapatos que comprei no Brás. Mudou de assunto quando falei disso, pois é, mas nunca gostou que eu trocasse os pontos das conversas... Como posso lhe compreender, mulher, já que me era excessivamente penoso dormir bem quando brigávamos? Sim, fumei todos os charutos deixados pelo pai e fazia tudo o que você não gostava, como, por exemplo, lavar a roupa. Apenas os chás firmavam alguma similitude entre nós dois. Já estava viciada nas ervas fervidas. Foi em fevereiro que você arrasou as cidreiras do quintal, lembro-me como se agora fosse março. Tinha perdido a delicadeza dos primeiros anos, foi o que matutei uma noite inteira a remoer aquele mate e todo o doce foi se acabando como numa ciranda de menina em cantarola. E assim, dessa maneira, feito uma menininha que ainda canta cantigas de roda, você se levantou de uma vez por todas da rede para me dar uma flor de camomila. De uma vez por todas, pois era doce e se acabou.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

A nau do eterno



Leandro Acácio e Sérgio L. Nastasi 
 - Junho 2012
Os dedos enxergam tanto quanto os olhos:
 que primor
os dedos do primor
 cegos dos olhos

o cego toca viola
e os dedos violam às cegas

  escrevem Ilíadas
 Ulisseias

dizem às pressas
descontroladas línguas

não há luz intensa
melhor que as liras

tumultuados poemas
tensas linhas novamente
sangraram o muro um dia
sangnolentamente

e não era a criança o problema
nem a cegueira que não via

apenas queremos ler a brisa
que alisa o céu
somente o céu delicado
que se arma enfim
sobre o concreto armado
 duro das guias
das guisas perdidas

  trançar novo canto
descendo a ladeira
bêbedo
como o santo dos santos

ah,
o copo que nos abocanhe
e ganhe no corpo,
aos tantos,
a manha de descer torto

eis o álcool:
velho equilibrista dos loucos



quinta-feira, 7 de junho de 2012

Ao poeta Leandro




Pela cabeça desse poeta
Ate, 

a deusa,
anda e desperta
manda,
feito Musa,
uma vivaz Fatalidade
felicidade pouco discreta


Que faz meu amigo?
Anda a olhar a lua embaçada,
Ronda um quarto úmido
até a sacada...
Saca uma ideia 
e dá à caneta...
Rasga papéis, pois é de veneta!

Que faz meu amigo me importa
mesmo se à porta se encosta
como quem nada quer,
nem mulher,
nem mulher...


Que faz esse poeta Ate sabe,
ela se insinua,
não nua, 
não nua...
mas afeta!


domingo, 20 de maio de 2012

A improvisar rapinamente

 
 
não sentimos o tempo
por via alguma ou todavia
mais sério que a coruja
mavioso mais que a cotovia

antes que surja a coruja
que suja capôs de carros
antes que lhe encha de escarros
o velho cara de coruja

antes que a dita cuja corja
acorde os novos ditadores
antes de ver tudo de novo
imitemos do pescoço a coruja

fazendo inveja a muita gente
se não vir que veja de repente
uma ave que assovia
a improvisar rapinamente

no princípio era a frase
as palavras já eram sabidas
hoje improvisamos quartetos
logo serão completos sonetos

não invejamos Petrarca
muito menos Camões
nem queremos deixar as marcas
no mogno dos caixões


(Leandro Acácio e Sérgio L. Nastasi - Maio 2012)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Quase íntimos



      

      Atravesso a madrugada contigo
            como quem rasga uma folha

         vamos assim a cruzar solidões

                        com olhares distintos

                              
                               vamos aos poucos
devagar, mas apressados
                          instintos, sensações

somos uns tantos
um
       dentro
                   da madrugada
                                            do outro

    com as mãos longe                                                  mas perto da folha
                                   e escrevemos
                                  quase íntimos