quarta-feira, 13 de abril de 2011

SPINOZA (O que pode um corpo, afinal?....)


I O corpo humano é composto de um grande número de indivíduos (de natureza diversa), cada um dos quais é também muito composto.

II Dos indivíduos de que o corpo humano é composto, alguns são fluidos, outros moles e outros, enfim duros.

III Os indivíduos que compõem o corpo humano e, consequentemente, o próprio corpo humano, são afetados de numerosas maneiras pelos corpos exteriores.

IV O corpo humano tem necessidade, para a sua conservação, de muitos outros corpos, pelos quais é continuamente como que regenerado.


V Quando uma parte fluida do corpo humano é determinada por um corpo exterior de maneira a chocar muitas vezes com uma parte mole, muda a superfície desta e imprime-lhe como que certos vestígios do corpo exterior que a impele.

VI O corpo humano pode mover os corpos exteriores de numerosíssimas maneiras e dispô-los de numerosíssimas maneiras.



 (Ética- livro II)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Fernando Pessoa... Eu? ou Mim?

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...



Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu... 



(Pessoa, Álvaro de Campos)

terça-feira, 5 de abril de 2011

TOM WAITS


Dando "continuidade" a mais uma dica musical, quero apresentar-lhes TOM WAITS, curiosamente citado pelo prof. João Régis ao final de uma de suas aulas de Estética, quando não havia mais "ninguém"...

João nos disse: "chega em casa e já procura, pessoal... ele é um pianista bêbado, mas canta muito!"


Uma provinha de Grenn grass:

terça-feira, 29 de março de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

segunda-feira, 14 de março de 2011

O Estrangeiro (L´Étranger)

Não tinha lido nada de Albert Camus até que, nesta semana acinzentada, apareceu na minha mão O Estrangeiro (de 1957). Um livro rápido e seco. Insisto: seco, uma narrativa dura, personagens duros. 

Naquele pequeno volume nota-se logo que Camus traça pelo menos uma característica recorrente no comportamento de cada personagem (seja uma fala, um gesto, um tic, etc.) e coloca, na visão da figura principal, Sr. Meursault, um ponto no qual ele desenreda uma história "desinteressada", para não repetir o lugar-comum gratuita. 

O processo dessa narrativa muito sincera, diga-se já, grada ligeiramente, e poderia usar aqui todos os sinôminos da palavra velocidade. Nenhum  livro - que li - foi tão veloz. Dizem que não se consegue largar um bom livro, caso do romance Cem Anos De Solidão, de García Márquez. Porém, nem posso dizer isso de O Estrangeiro, não havia "no" que segurar nele, não havia em que ficar preso de tão rápido que se pode percorrer aquelas páginas. Dir-se-ia: ora, foi exatamente a narrativa seca que me prendeu. Talvez... Enfim, recomendo.
Quero destacar algumas passagens da obra:


"O que me impressionava nas suas fisionomias era que não lhes via os olhos, mas unicamente um brilho fosco no meio de um ninho de rugas".

"Hoje, o sol transbordante, que fazia estremecer a paisagem, tornava-a deprimente e desumana".

"Tanto fazia ser ou não amigo dele, e ele parecia realmente ter vontade disso".

"Tire o cigarro da boca quando falar comigo".

"Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo".

"Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio".
   



sexta-feira, 11 de março de 2011

Findou-se


Findou-se,

e,

Para acinzentar nossos amores,


as cinzas do baseado do Rei Momo...



olha, fui muito mais Arlequim que Pierrot!




fui muito mais de mandinga que de tecné!








fui além do desperdício, além do monocromo
eu não fui só!
fomos todos nós.

É gostoso ser Nós...


Mas findou-se, e só.

terça-feira, 1 de março de 2011

estava sonhando um sonho sonhado





Sempre falo deste samba-enredo quando o assunto é Carnaval (e até quando não é...). A composição é da parceria Martinho da Vila, Aluísio Machado, Beto Sem Braço, Rodolfo e Graúna, para o desfile da Vila Isabel em 1980. Vice-campeã daquele ano, a "Vila não abafou ninguém", como dizem no bairro de Noel, "só mostrou que faz samba também".


O Enredo da Vila, por sugestão de uma professora de português, foi confeccionado a partir dos versos do belo poema de Carlos Drummond de Andrade, o Sonho de Um Sonho (que está nas páginas de Claro Enigma).



A batucada da Vila: uma maravilhosa consonância entre os tarois e as caixas, num tempo em que os repiques não aceleravam o samba, os tamborins não eram metralhadoras, e as cuícas estavam molhadinhas (ou calientes, como diria Ana Borm...).  




Outra coisa de que podemos falar com a boca cheia: a ousada estrutura do samba-enredo. Martinho sempre nos deu um baile neste quesito. Em 1987, com Raízes, fez um samba sem rimas, talvez "impraticável" hoje. Parte desse "estilo" se repetiu em Gbalá, 1993, com vácuos e apenas um refrão; naquela época mesmo já não se sonhava com isso (ano em que o Salgueiro venceu com o refrão-marcheado de Explode Coração).




Dá-me vontade de falar demais, mas a letra poderá completar este quadro, e, colocando nele uma pincelada final, repito que tenho saudades de um tempo que nem vivi.


Sonhei
Que estava sonhando um sonho sonhado
O sonho de um sonho
Magnetizado
As mentes abertas
Sem bicos calados
Juventude alerta
Os seres alados
Sonho meu
Eu sonhava que sonhava (bis)

Sonhei
Que eu era um rei que reinava como um ser comum
Era um por milhares, milhares por um
Como livres raios riscando os espaços
Transando o universo
Limpando os mormaços

Ai de mim
Ai de mim que mal sonhava (bis)

Na limpidez do espelho só vi coisas limpas
Como uma Lua redonda brilhando nas grimpas
Um sorriso sem fúria, entre o réu e o juiz
A clemência, a ternura
Por amor da clausura
A prisão sem tortura
Inocência feliz
Ai meu Deus
Falso sonho que eu sonhava
Ai de mim
Eu sonhei que não sonhava
Mas sonhei...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Agora quero brincar de rei
com ou sem fantasia sambar
Tanto riso, ó quanta alegria
Canto o que imaginei cantar




Abre-alas





Oh, abre-alas, pois eu sou da lira
Bebo sim, seu Arlequim
e beijo a minha Colombina





Noite dos Mascarados





Nos bailes jogam confetes
a noite é dos mascarados
mas triste entre foliões
um Pierrot apaixonado

a rua segue enfeitada,
diz-me um verso, trovador
Mamãe eu quero o Carnaval que ecoou
a Jardineira, a Cabeleira, Alá-lá-ô






A Jardineira










Recordando Chiquinha Gonzaga
Salve os ranchos, blocos e cordões
Noel Rosa e Lamartine vêm
com a gente reviver os salões












As Pastorinhas





Nas rádios, que belo canto!
Taí Carmen Miranda
também a estrela Dalva
pra ver a banda passar


Ver mulatas e loirinhas de Braguinha
ver a Bandeira Branca ao luar
Quarta-feira vai levar as serpentinas,
as ilusões e cinzas do amar





Bandeira Branca







Mas a Palmares quer voltar,
na avenida desfilar
embalada na marchinha!












 


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A flor-que-se-cheira é minha

cheire-a também,

venha cheirá-la, cheirar-me...


a flor está aberta

o poema não se fecha




abra as mãos, vamos, abra as mãos: é fácil

coloque a palma inteira na tela

ali mesmo, por cima da flor

desflore
desflore




quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Precisamos ficar mais tranquilos

mas é a hora do desespero, não? 




Nem vamos pela linha que se avizinha delicada
e sorrateiramente,




mas é a hora do chá, não?




Vamos rolar, vamos rolar é engraçado




e que outra ação, 
e qual dos epicureus,
e quem dos invertebrados vem agora?






Vamos rolar que é um pouco ataráxico

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

a vida é ao vivo

  

Nem me venha com este seu lado negativo















Ao vivo porque me encolho
Nas pernas dos meus poemas





E nunca pisco o olho
Nas telas dos seus cinemas






sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

repetido sonho




os assuntos dos meus sonhos estão insuportáveis

repetem-se,

passam os dedos numa lembrança suja,

pueril, poeirenta,

esgotam o imaginário

que se deu de lambuja

e por fim nada inventam...









repetem-se, repetem-se,

insinuam amores, desenhos, amores, siluetas,


ventos dobrados, a dobra dobrada

e as respostas daquela borboleta, lembra-te disso, minha preta?






tudo vem no mesmo sonho seco,
e não quero,



nele vem um livro que leio...
e não quero,



nele o desespero da queda,
e não quero,




repetido sonho, repetido seio,
beijo, mão, a tua sobrancelha, outro seio teu, 
lembra-te disso, minha preta?





repetido sonho, refrão deste desalmado,

acordo com o corpo morno, preta,

deixando teu travesseiro ensopado.




Janeiro 2011

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O mim

 






o mim é o eu que nada faz






























o mim é o que você tem de eu























o que você entende de mim?