"Quando comecei, o samba da época não dava para os grupos
carnavalescos andarem na rua, conforme a gente vê hoje em dia. O
estilo não dava pra andar. Eu comecei a notar essa coisa. O samba era
assim: tan tantan tan tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar
na rua assim? Aí, a gente começou a fazer um samba assim: bum bum
paticumbumprugurundum"
ISMAEL SILVA
(entrevista concedida a Sérgio Cabral)
terça-feira, 27 de abril de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
XXVIII
Camila soltou os cabelos. A avó debatia a sua importância na família, a ferro e a fogo, debateu, debateu, debateu; não teve, afinal, quem lhe tirasse da cabeça a ideia de que as três era uma.
XXVII
Tinha medo. Tinha medo... Não foi fácil montar tudo aquilo sozinha. Claudia nem ajudara. Desgraçada! Fez bem, fez bonito. Cecília fez bonito. Claudia só queria namorado.
XXVI
Fazia tempo que Cecília se preparava; recortou cada losango azul e colou sobre a camisa branca, de mesma alvura que a alvura do leite, mas com mais adereços, não apenas um pelo.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
XXV
E lembrar do quintal é lembrar de cheirinhos! É lembrar do mormaço, da fumaça, da planta, do grilo, do chinelo, da poeira e do gato. É lembrar do pelo no leite.
XXIV
Até então nunca tinha visto a Santíssima Trindade. Mas para vovó, Camila, Cecília e Claudia são a mesma pessoa.
XXIII
Quanto mais eu ouvir esse canto sem controle, sem andamento, sem letra fixa; ou quanto mais ouvir um choro de cachorro, aquele do vizinho, e pensando vagamente nos contornos da piscina vazia e suja no quintal...Chorando eu fico.
XXII
Como será ali na reta? Terá a mesma alvura da folha de papel, da tela do notebook, da faixa de pedestre, do leite?
Neca.
Neca.
XXI
Quem sabe ela faz do Bloco sua casa. Lá é menos frio. O ano inteiro é tudo, menos frio. João-ninguém passa ninguém vê passar... Este Bloco já foi alguém, assim, personificado. Vai, Claudia, vai! Se o Carnaval for em Março...
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
XIX
Não era assim um namorado, Um Namorado... Todavia, e visto que eles se encontravam muito, criam na verdade, na evidência de um casamento. Amanhã, só.
XVIII
Vá lá ela levar leite para ele longe de casa; melhor que buscar Cecília, melhor que buscar Cecília.
XVII
Cecília magoou o poeta. Ridículo! Ridículo o que ela fez! Não é porque se tem maioridade que já se faz assim... Irresponsável!
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
XVI
Sonetos, folhetins e essas coisas que tratam da delicadeza e da ira, espalhavam-se; e virou uma tragédia quando estes, perdidos na calçada, ao princípio, agora morrem na boca de lobo.
XV
A visão do capeta e da mão do poeta, ou a da mão de ambos, dessas figuras orinárias, seria extraordinária.
XIV
Não se pode reformar aquilo que nunca tomou forma. É preciso mudar algumas coisas ali e mais para frente. Muito melhor será desconsertar que construir.
XIII
Outro dia já era a oitava hora e o trigésimo segundo segundo sem energia elétrica. Ninguém contou. Porém, o relógio ainda castigava-lhes. Correram as vítimas do pesado ponteiro sobre as costas; molhavam-se um suor de guilhotina (frio e ansioso, suponho), não houve um que não se preocupou com os serviços atrasados. Claudia contou o trigésimo terceiro segundo.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
XII
Para quê? Para quais? Danou-se num grito só pelo quarto a procura do seu notebook.
Era sonho, disse. Era sonho de gente besta. Gente ruim nasce pronta, falou.
Era sonho, disse. Era sonho de gente besta. Gente ruim nasce pronta, falou.
XI
Corre, então!
Viveiro,
Peçonha,
Cobra.
A cabeça virada e os olhos virados para o mesmo lado: o inferior. Ao final das contas ficaram ela e o poeta, este que xingou até a subida dela pela escada. Segurava sim um estilete, ou uma faca, foi o que ele viu. Matar-se-ia?
Viveiro,
Peçonha,
Cobra.
A cabeça virada e os olhos virados para o mesmo lado: o inferior. Ao final das contas ficaram ela e o poeta, este que xingou até a subida dela pela escada. Segurava sim um estilete, ou uma faca, foi o que ele viu. Matar-se-ia?
X
Quadro lastimável, debochado. Curva estava à porta, a velhinha, velhinha branca, branquela - melhor dizendo -, se fosse menos transcendental que isso, jurou Camila, poderia escrever no seu caderninho. poderia até escorrer a lágrima de sangue tão sonhada, ou leite, ou o pelo também.
IX
Nunca fizera assim. Sentava e vomitava. O ludo, a roça, o cata-vento... Nunca fizera assim. Sentava e vomitava. Bizolhou, bizolhou; fez arte, disse a avó. Nunca a nuca molhou tanto. Sentou e vomitou.
Correria,
Lenço,
Faca,
Estilete,
Corte!
Nunca vomitou assim.
Correria,
Lenço,
Faca,
Estilete,
Corte!
Nunca vomitou assim.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
VI
Bem porque, de pouco em pouco, mesmo assim sem rimas, o estrago fora feito. Nada mais estava como na chuva: murcho, molhado e escorregadio; estava agora seco, pisado e vadio.
V
É um fluxo... Sentir o sentir, mas O sentir, que é diferente do só sentir. Camila não pode mais sentir a brisa do amanhecer, pois, tanta cafonice, pensava, não condizem com a sua formação, com seus cinemas. Pensava na folha.
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