quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A MÃO FRÁGIL


A mão frágil
E um toque difícil
As unhas cortadas,
Mas sujos os dedos

Um dedo fácil
E a mão no vestido
As unhas pintadas,
Mas sujos os pulsos






























Não me toques,
Não me toques...

Antes distorça a realidade
Com estas mãos invisíveis

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Quadrado dos Devires ( 3 )


            3. ABERTURAS PROPONENTES 
            Sabemos da dificuldade que há na ativação de aberturas proponentes em quaisquer tipos de tarefas filosóficas, embora isso não faça nenhum sentido, porque só existe tarefa filosófica se há, antes e ao menos, uma dessas aberturas. O que queremos dizer com abertura proponente e tarefa filosófica? Afinal, não é o que abordamos desde o início? E talvez tenha chegado o momento de abrigarmos sob o pano da escrita as nossas vontades, enfim, ligar de uma vez as nossas máquinas-desejantes — ao prazer...


           Quando analisamos as tarefas propriamente ditas filosóficas: metafísica, hermenêutica e fenomenologia (como Gadamer nos contou), notamos simples movimentos, gatilhos falhos ou alarmes falsos. Mas, a partir desse enunciado, também se remodela a questão: o que é, ora, uma tarefa filosófica? Há um mote ‘propriamente dito’ filosófico? Ou melhor, qual assunto é tratado unicamente pela filosofia?  Deixemos este caso em aberto, pois que é mais gostoso tratar do outro ponto — as aberturas proponentes...


          Sim, porque a um só tempo podemos gritar com Quevedo: “Se não sempre entendidos, sempre abertos”. Talvez não haja abertura que não seja múltipla, ou que não se desdobre e possa se refazer; ela pode ser destruída, mas não é de sua natureza destruir-se, pelo contrário, a cada movimento seu campo é ampliado e a sua pluralidade pode ser enxergada a distância. É natural que a abertura seja múltipla porque permite a entrada de um sem número de propostas, e a saída destas, em compensação, faz nascer outra infinidade de aberturas, por isso o nosso estranhamento principal quanto a supostas impossibilidades nas atividades da filosofia (que grafamos tarefa), ou seja, se é de bom tom que os argumentos despontem da maneira mais livre e agradável em quaisquer desses discursos FI-LÓ-LÓS, por que esta mania de prender nossos urubus?

           Quiçá não seja tão importante o que há lá fora, mas as nossas janelas ficam escancaradas.   

   

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Quadrado dos Devires (1 e também 2)



                 1. SOBRE O DESFAZER 
                Ocupar, não invadir, mas sim e sempre, invadir o ocupado e desdobrá-lo num terceiro ato, num quarto momento, num quadrado momento. Fazer, refazer, desfazer, redesfazer, desredesfazer. Ora, ora, ora... São ritornelos. Mas não são repetições, reproduções, porque se desfaz, porque se rasga também; rasga-se o barbante ou a fita de obras, coloca-se outro ou outra, em outro dia, em outro andamento, em outro devir. Põe-se o novo barbante ali e o nosso contorno nasce; uma fronteira cosmopolita, nunca limítrofe. 

                 O Quadrado é formado por linhas entre um poste e três troncos. O Quadrado é um monumento, às vezes imaginário como a linha do Equador: o maior monumento imaginário do mundo; às vezes aparece parcialmente, mas sempre aparece. Não é um dizer ou um significar pelas vias primeiras do que não-é, retirando todo o frescor e cristalizando a possibilidade de responder as questões, mas fazer das mais pertinentes e das melindrosas perguntas várias réplicas, de modo a jamais aplicá-las a compreensão última: o que importa-nos será dizê-las e só. 

                 Então, dedilhar as folhinhas outonais, saber que é gostoso usar ponto-e-vírgula, deitar os platôs que admiramos e contemplar complementando a atmosfera filosófica com a nossa fala é um fazer já se refazendo, é a saúde da filosofia e seu deleite. Pois até mesmo os refrões são diferentes quando voltam, os pensamentos e as rabugices, as dinâmicas e as diacrônicas palavras, o chá proibido e as sincrônicas piadas, e, de contínuo, a Árvore que nos vê com duas lâmpadas-balões. Ali vivem as esperanças, os famas e os cronópios[1]. É muito bom transar o universo e gozar a via-láctea ou jogar a amarelinha ainda opaca das ideias improvisadas compostas para uma filarmônica dos devires: aquela que não busca um final, porque, aliás, para que servem os finais?






[1] Julio Cortázar. Histórias de Cronópios e de Famas.




                    2.  SOBRE O DESVIRAR 
                    Hoje, relendo aquele texto (acima) que escrevi sobre o Quadrado, fiquei espantado com algumas letras, com o peso delas. A um só tempo pude senti-las pelas costas e também sobre a cabeça (onde já repousava uma antena branca), a leveza de penachos e a dureza de um saco de pedras. Simplesmente porque voeja assim a nossa peteca dos devires: sem a obrigação de manifestos e essas coisas de engravatados... Enfim, sem obrigações.
                      Ocupar foi uma palavra de difícil releitura. Por que a coloquei? Talvez porque procurasse a força que há por de trás dela. Mas esta intensidade poderia surgir de outras letras, sem, todavia, retirar a pedrinha do saco que lhe representa. Quiçá a palavra Ocupar fora enfiada ali somente porque não queria grafar Invadir. Porém, percorrendo ainda pela manhã o lado A do barbante, vejo que nem uma nem outra são boas, tudo por causa do redesfazer — você se lembra?— Nada no Quadrante se repete. “Ah, mas e as pessoas?”, o que é uma pessoa neste instante-já e o que ela será no próximo instante-já? Isso não é complicado. 
                   Bem se vê que é outro agenciamento. Por outro lado (B), há sim um contínuo, ou ao menos a sensação de que ele existe, porque é preciso parar o devir para cutucar o ser; por aí se firma um paradoxo, e tão violento que faz nascer a noção da não existência de um Lado A ou B, C, e D... Mas o ‘daqui pra frente’, e há um motivo para que aquela sensação não seja ignorada: porque há um caminho, um rastro deixado pelo gato que esticou suas patas preguiçosas na grama a se virar, revirar, redesvirar...    
  

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

"É seu primeiro livro?..."


Há um ano terminei e publiquei meu primeiro romance. Reli diversas vezes e fiquei impressionado com alguma coisa aqui e ali daquela minha velha escrita, além, claro, dos vários erros de português que passaram desnotados por falta de uma revisão mais detalhada (micro-revisão).

É bem verdade que nunca gostei do seu enredo, o que me importava mostrar em O Ninho de Farpas era a palavra feminina, de modo forte e delicado, beirando a sensualidade, o Eros... A personagem Tânia, por exemplo, tomava com seriedade o risível (e ria das coisas sérias), gostava do fino trato, porém, isso não quer dizer que tratava bem os outros, pelo contrário, ela desprezava a todos. Foi interessante, nessas releituras, descobrir que construi uma personagem que aspirava ao Desprezo, saber que a personagem que eu fiz com tanta paixão era má sendo que esta não tinha sido a minha intenção. 

Muitas outras coisas também despontaram por elas mesmas, ou seja, sem que eu pudesse dar sinal e permitir que assim ocorresse. Seu Grinaldo, personagem senil, foi uma delas. Ele simplesmente fugiu da ideia original que era a de ser um senhor muito sério, provocador e conselheiro, ou melhor, que tivesse, ao contrário das outras personagens, a coragem e fala suficientes para mudar o rumo de Tânia. Mas, no fim, vejo Seu Grinaldo como um pseudo-Sócrates, sempre derrotado pelos seus interlocutores...
Se, enfim, O Ninho de Farpas "valeu a pena" ou valeu uma caneta estourada no bolso da minha melhor calça, tenho dúvidas. Entretanto, o bom foi ter me lançado sem velas e sem bússola, e eu ainda tenho de me tornar marinheiro.

ERos, eros, erOS...



"Tenho o brilho das constelações extintas há milênios..." 
 (M. Bandeira)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

permito não permito I

Sussurro um poema sentido
sentido sem lógica

Um murro na mágica
poema sem dito,

relógio








Sussurro um escrito
sem palavra mágica

Ditado num muro
permito não permito,

durmo...

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

l'image est vivante

A imagem aqui não é somente um fio-condutor das conceitualizações que faço, 
pelo contrário, ela é força e prazer. 

O prazer é a potência criativa.

E se o filósofo é também um arquiteto, sua arquitetura desenha o possível, 
e as paisagens, que nunca são inertes, despontam livremente no fluido
dos seus conceitos de concreto-armado.


Armações, Arte-culações.

Não acho, como alguns me dizem, que meus textos são "difíceis".
Quando teço sobre algo filosófico comenta-se que não há realida-
de naquilo, que a filosofia é sempre "irreal". Mas que erro achar
isso! E que besteira responder...


O Contexto é a própria Vida...

E mesmo que seja um virtual, um quintal, um coelho ou um sonho,
será Vida, o meu contexto.

terça-feira, 21 de setembro de 2010



Mirando a boca do vento
Lambi a névoa
Levei a brisa à Isadora
Que vi conversando com o mar
Segredando um sentimento de amar
Que na vida somente chora
Que a vida não quer se acabar

















Não te comovem essas letras pretas,
a névoa, a brisa e Isadora no mar?



































Só te comovem o consolo dos fracos
e a voz rouca de quem não brinda o amar.





Circo, Theatro e Fantasmas

Não quero me ausentar
do palco dos seus olhares

que são Circo e Theatro sem lugares
que são lonas e cortinas cerradas
que se abrem e se fecham
como portões sobre calçadas

Não quero que não queira se ausentar
do palco que lhe construí

                    
eu que nada lhe descortinei
que nunca lhe disse para me abrir
ao menos para admirar a asma

E há tantos e tantos fantasmas nos meus pulmões
e há outro e outro dente que não lhe sorriu

E há circos e circos sem lugares
sob a garoa dos seus olhares


(Agosto 2010)

DENTRO

Faz das tripas canção.

Musa que é Musa dá música.

Sangra pelas artes
mesmo que para nada valha sangrar,
sangremos,
sangramos...

Mesmo que se na navalha fiar,
desfiar, desferir,
cantemos,
cantamos...
 
A nêga que é Musa
A Musa que é nêga,
abusar

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

SEMIÓTICA


Olho
Meio-olho
Ótica
Semi-ótica

macro-olho
micro-olho

macrótica
micrótica
meiótica


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

MULHER-DEVIR


Ao espírito do mundo:

todas as horas

todo minuto



Posso crer pelo entendimento, sim,

posso adiantar as horas no imaginar

todas as horas de mim...

Ninar.

Afastá-las como se arrasta um ponteiro

poetar, poetar sim!

Poetar
                                                                                                                                                                 













Todas as horas em mim.



Você é telefone que chama uma vez

Depois se ocupa

Fica muda

Muda de linha

A linha das pernas






Muda de roupa

Turismo em seu corpo

Horas eternas














Você é televisão sem volume

Que é só lume

Lume,

Lume,

Lume...





Todo minuto é homem,

Todas as horas são mulheres.




(Sérgio L. Nastasi e Leandro Acácio- Março 2010)

MULHER-MARIA



Da amalgamada alma, corpo tu és rei
Ainda que o corpo falhe, falarei
Na arte obscura da lei tu imaginas
Ou na pura canção que desafinas
E se comes, comes as rosas









Delas se delicia impunemente
Entre outras vaginas
Entre outras mil ferventes
Mulheres



                                                                                                                    





 


Pergunto ao corpo: queres?
Jamais lhas amei!
Mas se o corpo mandar como rei
Além da mãe,
Além da filha
Ou mesmo aquela que trilha
Corpo que brilha num beliche
E cai dum sonho esquisito
Da velha rede mata-mosquito
Faz dos corpos sanduíches!
E morre de dor de barriga













                                                                                            


Mas se sem pudor ferir o corpo
E vives, ainda que morto
Duma guerra sem fadiga
Duma chama aguerrida
Coma como o cume de cima da montanha
Dum fatal coma profundo nessa façanha
Cume
Cume
Cumes

















                                                                                                   

Da cumeeira antiga de novos pássaros               
Ainda que falte um deus
CRIAR
Ainda que faltem rosas no cume
Criá-las de origami
E deixe que o corpo ame
Ainda que faltem vaga-lumes
Ainda que veja Andaluza
Não ame o amor do reclame                                              
                                                                                            
                                                                                           







Leandro Acácio e Sérgio L. Nastasi (Junho 2010-via MSN)

AS PALAVRAS E AS MOSCAS


Elas se parecem com as palavras, já perceberam?
São varejeiras, vagueiras, sujas, frágeis, fugazes... 
As palavras se comportam assim.
Temos que tomar o cuidado, às vezes excessivo,
para não arrancar uma de suas perninhas.