domingo, 20 de maio de 2012

A improvisar rapinamente

 
 
não sentimos o tempo
por via alguma ou todavia
mais sério que a coruja
mavioso mais que a cotovia

antes que surja a coruja
que suja capôs de carros
antes que lhe encha de escarros
o velho cara de coruja

antes que a dita cuja corja
acorde os novos ditadores
antes de ver tudo de novo
imitemos do pescoço a coruja

fazendo inveja a muita gente
se não vir que veja de repente
uma ave que assovia
a improvisar rapinamente

no princípio era a frase
as palavras já eram sabidas
hoje improvisamos quartetos
logo serão completos sonetos

não invejamos Petrarca
muito menos Camões
nem queremos deixar as marcas
no mogno dos caixões


(Leandro Acácio e Sérgio L. Nastasi - Maio 2012)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Quase íntimos



      

      Atravesso a madrugada contigo
            como quem rasga uma folha

         vamos assim a cruzar solidões

                        com olhares distintos

                              
                               vamos aos poucos
devagar, mas apressados
                          instintos, sensações

somos uns tantos
um
       dentro
                   da madrugada
                                            do outro

    com as mãos longe                                                  mas perto da folha
                                   e escrevemos
                                  quase íntimos

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Heras



 no canto da boca escorrem
línguas macias se mordem
em noites longas
esfregam-se
voluptuosas palavras
de carne morna
:
cócegas no céu
fulguras de precipício
mantos suaves
encanto de víboras
gotas de paixão
e as pontas dos dedos
tamborilar
infindo na cabeceira
o aroma de alfazema
e uma nota alta
moreno, cravo,
ao pecado do açúcar
- contaminam-se pescoços eriçados
corpos compostos
raminhos de ervas estendidas
na justa trama de substantivos
abraços apertados
por toda parte
vagueiam almas, adjetivos se devoram,
olhos reviram, imploram todos os verbos

transbordam,
transbordam...

na saboneteira
uma poça azulzinha
alimenta
sílaba por sílaba
trova ofegante
vacila que vacila
a língua
na língua
multiplicando cordões de heras


Penélope Martins e Sérgio Lima Nastasi 
Abril 2012


Oficina de escrita criativa para adultos




O curso da história é ininterrupto e cada personagem a reescreve de maneira única...
 
A oficina de escrita criativa tem a intenção de trabalhar a capacidade de expressão escrita. 
A presença do interlocutor na sala não se dá como professor de conteúdo; apresentam-se propostas aptas para desafiar a criatividade e a capacidade de abstração para que os participantes liberem suas linguagens autênticas. Atingir o imaginário é o objetivo; a forma da narrativa é elaborada posteriormente.

A leitura conjunta, o compartilhar de idéias, a observação da arte, a percepção da melodia e da beleza são buscas da exploração na escrita. É preciso eliminar os filtros restritivos que impedem fluir o processo criativo antes de estruturar a comunicação.

Vale salientar que o uso da palavra fomenta a leitura e o manuseio de outras linguagens. A oficina de escrita desperta o leitor, o crítico, o pensador livre.

Não se trata de um projeto para formar escritores, trata-se de integrar a expressão escrita ao cotidiano de maneira natural, espontânea e úti l para  diversas atividades.

O material de apoio é diversificado para englobar vários olhares sobre mesmas vivências. Pode ser utilizado um texto de mitologia, um livro de literatura infantil , um artigo de filosofia, uma canção de amor ou um rap. O que importa é permitir olhar a pluralidade que forma cada ser humano, aproximando a escrita  das vivências e dos afetos.  

Penélope Martins convida à leitura das colunas que publica periodicamente no Jornal ABCDMaior indicando leitura para crianças e fomentando vínculos afetivos com o hábito de ler - http://www.abcdmaior.com.br/noticia_exibir.php?noticia=40330; contos e crônicas na revista pastilhascoloridas.com, toda sexta-feira, realçando o sabor da vida nos relacionamentos humanos - http://www.pastilhascoloridas.com/2012/04/azeite-e-alecrim-chocolate.html.

 

 Data: 19 de maio de 2012
 Horário: 13h às 18:30h
 Investimento: R$ 120,00

Local: CLIA Clínica de Psicologia

Vitória Régia, 1095 - Bairro Campestre
                Santo André – São Paulo

Inscrições:  4424-1284/ 2598-0732 –  Renata

Vagas limitadas
                         

Será uma tarde de exercícios de expressão escrita e reconhecimento literário com indiscutível crescimento de afetos nas relações humanas. Venha participar!


domingo, 29 de abril de 2012

Poema à trois


Maria, Sérgio
o amor nos confunde
não em relação ao sexo
mas sim àquilo que funde
quem nos confundiria
Leandro, Maria,
o amor nos trança
assim, em poesia,
quem não trançaria
trança, quem não sabe
quem não conhece
mas bem poderia.
nessa onda de vento
não há saber no pensamento
mas quem saberia?
saber
só quem se arriscaria
na trança
no vento
ou na poesia.
versar,
pois assusta um canto lento.
Ao vento versar,
pois quem cantaria?
não nos basta saber que o amor é brisa
é mito
queremos beber da fonte
onde o verso é cantado aos gritos .
na apnéia de sentidos
sinestesia em vão
o que se sente são só os gritos
e os ecos que aí estão.
Mnemósine que nos leve,
mesmo não sendo a panaceia,
que entre pelos ouvidos
um verso breve da Odisseia.
não sei se surdo escuto essas cores
que vivas parecem dormindo
salvo em nossas retinas
salvo na mente zunindo
mas por hora só me lembro Telêmaco
Penélope e Argos latindo


(Maria Bianchini, Leandro Acácio e Sérgio Nastasi - Abril 2012) 

domingo, 22 de abril de 2012

A palavra cansa


 
A palavra cansa
Faz arder um olho
Protegido ou não
Por uma lente

A palavra trança
Um caderno e outro
Espiral na mão
Feito corrente

A palavra também dança
Sarapintada ao todo

A palavra grita, espirra
E entre pulmões é latente


(Sérgio L. Nastasi - Abril 2012)

sábado, 14 de abril de 2012

John Burnet: De Tales a Platão

BURNET, J. De Tales a Platão (eng). 
John BURNET - este senhor ao lado - foi um filólogo escocês (1863-1928). Dentre suas pesquisas mais importantes estão as obras "A aurora da Filosofia grega" e o livro "Greek Philosophy: Thales To Plato", texto que deixo abaixo para leitura e download.                                                                                                     

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Pouco tempo para a poesia



Pouco tempo para a poesia:
diagnosticar a própria afasia
os dias e os trabalhos sem calma
correria, 
correria.


Há quanto tempo não fazia
mesmo com roer do estômago:
diagnosticar uma forte azia
um rasgo na boca do esôfago,
gritaria, 
gritaria,
meio-dia e um ponto.


Sérgio L. Nastasi - Abril 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Tragédia Grega - Os slides para a aula





terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Camisas




Jefferson Beat e Sérgio L. Nastasi - Fevereiro 2012


As brisas desse tempo
marcam as nossas camisas,
bordadas com linho nobre
mas pelas lembranças corroídas

As vidas que nos seguem
são todas bem-vindas
se embebidas, vinho branco,
se amassadas, doloridas.

E as dores que nos carregam,
desfiam retalhos pelo caminho
que rotos, rasgam, desfazendo-se
Pondo a alma em desalinho

Algumas mãos têm cuidado
e lavam as nossas camisas
de um azul desbotado
como um céu de memórias precisas

Mas algumas manchas, indeléveis
Impregnam para sempre no tecido
E não há solvente que apague
As marcas de um peito dolorido



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Abobados poetas que somos

  
Sérgio L. Nastasi - Fevereiro 2012



"Te quiero"
sem pontos de interrogação invertidos

"Te quiero"
num espanhol descabido

com e sem fantasia
triste e desesperada poesia
que canta abobada
feitio da adolescência
que anda sambada
sentida numa cadência 

nada de amores passados
nada de rancores pesados
nada de versos sofisticados
nada de nada: niilismo passivo
vontade de vontade
idade da razão, 
fora o juízo.

idade de cantar de novo
abobados poetas que somos

E Somos é apenas mais uma palavra.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Belo talhe






                         

Ana Borm e Sérgio L. Nastasi - Fevereiro 2012


Das ondas dos vestidos,
Contavam-me os ventos
Segredos das virtudes
Florindo, assim, tudo feito.

                                                                             Silhuetas de moças
                                                                     Pensamentos incomuns
                                                                                          Só ela seduz
                                                                   Estranhando suas coxas.


Inventa o próprio corpo
dedo a dedo: detalhe
examina um e outro
seio a seio: belo talhe


                                                         Compara ainda com a sombra
                                                                e anda de lado ao espelho,
                                                                       cruza braços e joelhos,
                                                            respira os ventos e as ondas.




sábado, 18 de fevereiro de 2012

Algum dia, numa praça.



Um verso estreito,
ainda melancólico,
armado e sem jeito,
ébrio,
egrégio, 
insólito.



Um verso e teu rosto,
copos de plástico, uma taça
e nós:
falantes ou tácitos,
algum dia,
numa praça.
 


 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Alvoroço de moleca



Para Penélope Martins.


Será que Julinha vai se enredar num lençol molhado que a tia pôs na bacia? Não, não. Nada disso... Ela só vai passar a língua na beirada da bacia e sentir o gosto do alumínio.

"Menina!!!".

"Ué! Não pode, não?".

"Onde já se viu? Aí tem cloro e alvejante e amaciante e cândida e dínamo e detergente e tudo!".

Julinha não se conformou com isso, raptou a cesta de pregadores e saiu a colocá-los entre os vasos de samambaias que não vingavam.

"Para já de alvoroço, moleca!".

Com os pregadores verdes, Julinha fazia cri-cri e repetia os nomes com que tinha batizado uns grilos. Aos amarelos, as lagartixas. Aos azuis, as drosófilas. Será que não ficavam com ciúmes? Achava que não, ora: já tinha cinco primos com o mesmo nome! Quatro Carlos de sete anos e mais a prima Carla que, para Julinha, era um Carlos também.

"Mas, tia, o que é drosófila?".

"É aquela mosca que entrou na sua boca ontem e está a zunir desde a hora que você acordou!".



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Um Soneto de Florbela



PIOR VELHICE

FLORBELA ESPANCA

Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
Dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam, em voz rouca,
Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!

A Vida, que ao nascer, enfeita e touca
De alvas rosas a fronte da mulher,
Na minha fronte mística de louca
Martírios só poisou a emurchecer!

E dizem que sou nova ... A mocidade
Estará só, então, na nossa idade,
Ou está em nós e em nosso peito mora?!

Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
Aquela onde nem sequer existe
Lembrança de ter sido nova ... outrora ...







(Do "Livro de Mágoas")

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

DOM JUAN NOS INFERNOS


                                                                                      Charles Baudelaire, em "As Flores do Mal"



Quando dom Juan desceu ao subterrâneo rio
E logo que a Caronte o óbolo pagou,
Como Antístenes, um mendigo de olhar frio
Com braço vingativo os remos agarrou.

Os seios flácidos e as vestes entreabertas,
Mulheres se torciam sob um céu nevoento,
E, qual rebanho vil de vítimas ofertas,
Atrás dele rosnava em atroz lamento.

Sganarello a rir a paga reclama,
Enquanto, erguendo o dedo, apontava dom Luís
A cada morto que nas margens deambulava
O filho audaz que lhe ultrajara a fronte gris.

Em seu álgido luto, Elvira, casta e esguia,
Junto ao pérfido esposo, amante seu de outrora,
Parecia exigir-lhe uma última alegria
Cujo sabor não recordasse o fel de agora.

Ereto na couraça, um homem pétreo e imenso
Golpeava a onda noturna e ao leme as mãos prendia;
Mas o tranqüilo herói, por sobre a espada penso,
Olhava a água passar e em torno nada via.


domingo, 1 de janeiro de 2012

Enterro


 Ana Borm e Sérgio L. Nastasi - Janeiro 2012



Silêncio de tua alma,
doce e puro enterro
nosso amor se foi,
ou nunca existiu.

Sombrio é teu quarto
rosto de um perro
amoroso de acalantos
ou de cantos altos

Garanto que minhas preces
já terminaram em pobres palavras
Seu rosto,
minha consciência sufocada.

Garanto que pouco garanto
canto quase aos sussurros
e dou murros aos montes
no céu negro distante

Já distante de tuas mãos
Consigo enxergar o vazio
suspiro na noite escondida,
me assombro, triste solidão

Não sei se a noite se esconde
ou se eu mesmo a assombro,
mas sigo a falar de vazio
e imaginar teus belos ombros

Ainda deparo-me com a noite
que me faz chorar
e penso que vou morrer
antes de te abraçar

sábado, 24 de dezembro de 2011

Criar e Cair




Interrompi a escritura de meu segundo romance, pois uma angústia tem me tomado. É preciso esperar um pouco. Mas, esperar o quê? É esta a pergunta que me dá uma rasteira todos os dias. Uma angústia? Não sei bem qual é a melhor palavra... Sinto um desespero porque, talvez, eu tenha levado a situação das personagens a um extremo insustentável. Todavia, não jogarei nenhum papel na cesta de lixo. Ora, não é para tanto! Pode ser uma daquelas crises que, numa de suas pontas me faz criar e, em outra, me faz cair. Criar e cair: um bom anagrama, uma leve transposição, saca? 
Ah, como é divertido escrever. Uma necessidade. Criar uma queda, um cair criador dentre as mais difíceis liberações ou vapores de um texto: persigo tal perigo, saca?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Entranhas



Não domino entranhas
ou estranhas estradas: estrias.

Não ando a seguir estrelas
ou a guiar-me por onde
desfias.

Mal conheço teu começo
que dirá teus meios.

Mal caio em teus braços
e logo tropeço em teus seios.

Nem sou de vanguarda em teu corpo
como em tua suposta alma.

Nosso amor assim nati-morto,
nossas bocas chupando uma arma.



Sérgio Lima Nastasi (Dezembro 2011)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cruel com quem amo

Sendo eu cruel com quem amo
não posso mesmo ter o teu perdão.
 
Sendo eu frio e desalmado,
cinza como sábado nublado,
nem posso pegar tua mão.
 
Sendo eu um poeta menor 
de rimas fáceis,
de dores confusas,
de braços frágeis,
nem posso tremelicar olhando-te a sorrir.
 
Mas quero que sorrias,
dias e dias,
et cetera ou o todo porvir.
 
Sérgio Lima Nastasi (Dezembro/2011)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Palárvore: o pé da letra.

Leandro Acácio e Sérgio L. Nastasi (dezembro 2011)

A árvore não reclama um nome
o rubor na bochecha: o que é?
que apelido darei ao ar?

nem o próprio nome reclama um nome
nem precisa que alguém o chame
por que iria me desesperar?

e aqueles que arregaçam signos
querem, ao badalar de sinos,
chamar-se, chamar-se...

não sabe o que calaria
a voz não queria exaltada
a palavra: poesia

Palárvore: o pé da letra
a voz trêmula e acabada
de quem nunca chamar-se-ia


domingo, 4 de dezembro de 2011

A Solidão: nada a dizer.


Não tenho a quem dirigir-me para dizer que sofro. E creio que este seja o acmé da solidão: nada a dizer porque ninguém para dizer. É a diferença entre o silêncio como fundo da música-figura, e o silêncio que participa da música, como em John Cage. Meu nada a dizer só é assim porque não há aquele para ouvir o que tenho para dizer. Mas esta não é uma situação acidental: o meu nada a dizer só é assim porque não há quem possa ouvir. A essência do nada a dizer que mostro é a de não haver a quem dizer. Se houvesse a quem dizer, já não seria “meu nada a dizer”, que, este, é produto da ausência de interlocutor. Ou melhor – em uma gênese, a ausência do interlocutor é a condição para o nascimento do meu nada a dizer. A solidão contingente, não ter a quem dizer, funda a solidão necessária, nada a dizer. Mas este nada a dizer é nada a dizer porque é o dizer do sofrimento, que só pode ser dito para alguém, pouco importando como este alguém se forma. É um alguém, associado à minha vida pessoal – que se tornando ausente por morte, torna o meu nada a dizer do meu sofrimento uma parte essencial de mim”. 

Claudio Ulpiano



Este texto foi publicado em Pensar de outra maneira – a partir de Claudio Ulpiano, Editora Pazulin, Rio de Janeiro 2007.

Tatiana Roque
professora do Instituto de Matemática da UFRJ.


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Uma nova leitura de "As palavras e as coisas".




A obra As palavras e as coisas (1966), do filósofo francês Michel FOUCAULT, ganha uma nova leitura este ano. O meu amigo e parceiro de escrita EDUARDO BENTO (foto) acaba de apresentar sua bela monografia intitulada "A população como operadora das transformações no saber da linguagem a partir da perspectiva de Michel Foucault". Esta nova abordagem  revela ao leitor uma discussão ainda recente dentre os pesquisadores em Filosofia Contemporânea, pois trata-se de uma articulação entre a obra de referência, principalmente com um aprofundamento acerca do "saber da linguagem", e uma aula do filósofo, de 1978, transcrita para uma série de volumes chamado Ditos e escritos, na qual Foucault, doze anos após ter dado o imprimatur ao título original Les mots et les choses, fala sobre as críticas ao seu texto a partir de várias releituras suas, notadamente provocado por demais estudiosos. 
      Apresentarei abaixo apenas os últimos fragmentos do texto do Eduardo que, a saber, articula-se também com as ideias notáveis que rondaram por esses anos o Quadrado dos devires e as demais vizinhanças proponentes...



      Há quem defenda a repetição da representação; há quem a critique veementemente. Existem aqueles que entendem que há diferença no desejo e semelhança na imaginação. Já outros veem, na história, a imagem sem pensamento, ainda que o pensamento possa efetivar-se sem imagem alguma, em defesa do etecetera. Ainda há quem critique, elogie, inverta, subverta e até mesmo perverta positivamente o pensamento e as obras de Foucault, principalmente entre as palavras e a ordem das coisas... 

      O que tentamos descrever, muito antes de qualquer pretensão em estabelecer uma conclusão geral e teleológica acerca deste estudo, foi como a arqueologia, juntamente com a genealogia e as análises das formações discursivas das técnicas de poder, forma como que um “ciclo” de comparações, ou aproximações entre enunciados, dentro de amplas perspectivas presentes em um único autor; neste caso, um autor e duas obras (Les mots et les choses e Segurança, Território, População)[1].

      O projeto de Les mots et les choses se fez pela hipótese de mostrar a história das ciências humanas, e quais modificações elas promoveram na ordem do saber; foi isso que o nosso estudo procurou descrever acerca do saber da linguagem. E assim, quanto mais o discurso das ciências humanas se unificava, mais o sujeito se dispersava naquilo que era dito. É justamente por esse motivo que a figura do homem, para Foucault, vivera apenas por 200 anos na história do Mesmo, onde o seu rosto mal se constituiu e prontamente se esvaiu. De tal sorte que é anunciada, pois, a morte desse homem empírico-transcendental, que as ciências humanas quiseram, a todo instante, analisar em sua essência; daí advém a crítica de Foucault. Com tudo isso, podemos dizer que o fim desse homem para Foucault corresponde diretamente com a morte de Deus anunciada por Nietzsche. Por conseguinte é pela força que a linguagem possui que “talvez o homem esteja em vias de desaparecer”[2].

      Ademais, essa força que a linguagem adquire está relacionada com a literatura, como autêntica experiência da linguagem. É por isso que a loucura se manifesta com avidez na arte, e se dá como um lugar onde se faz presente o questionamento, pelas formas indispensáveis de se dizer o impensável, ou inefável, a partir de Bataille, Kafka, Blanchot etc. Portanto, a literatura é apresentada como transgressão na ordem das coisas.

* * *

      O ponto central que Foucault apresentou em Les mots et les choses, e que nós procuramos descrever minuciosamente neste estudo, é o da crítica à busca por uma origem, por uma essência primeira como verdade do homem; no entanto deve-se renunciar aquilo que Foucault chama de “sono antropológico”. A arqueologia, não entendida como solução prática de alguma questão posta em suspenso, mas antes compreendida como análise das condições possíveis para a formação de determinado saber; ela evita que deixemos um discurso sobrevir como uma verdade objetiva, desvelada, por uma razão que se ilumina e evolui até chegar à sua maioridade; eis novamente a crítica do arqueólogo do saber, que se faz por uma analítica ao despir a “verdade” construída por um discurso pelo qual “cada época arma e faz valer certos saberes”[3]...

      Sobre os enunciados em Les mots et les choses, Gilles Deleuze assim se expressa:

(...) não se trata de coisas nem de palavras. Nem tampouco de objeto ou de sujeito. Nem mesmo de frases ou proposições, de análise gramatical, lógica ou semântica. Longe de serem síntese de palavras e de coisas, longe de serem composições de frases e de proposições, os enunciados, ao contrário, são anteriores às frases, ou às proposições que os supõem implicitamente, são formadores de palavras e objetos. [4]


      O arqueólogo trata, portanto, especificamente das análises de como se forma um saber com um enunciado que se encontra dentro de determinado saber (da linguagem, por exemplo)...

* * *

      Para “concluir”, nosso estudo abordou acerca dos modernos mecanismos de poder a partir do chamado governo das populações, em sua efetividade na transformação da gramática geral à filologia. Isso evidenciou que a temática do homem, apresentado no campo “analítico” das ciências humanas como um ser vivo, trabalhador e sujeito falante, se dá com a emergência da população “como correlato de poder e objeto de saber”[5]. Esse mesmo homem, pensado, analisado e definido pelas “ciências humanas” é a imagem da população no século XIX. O homem foi, portanto, o problema central do saber-poder, que se realiza pela noção de governo – não de soberania – das populações; e a linguagem, expressa pelo homem, sofre as transformações dentro do campo epistêmico a partir das mesmas técnicas de poder, e também do objeto que se emerge a partir delas: o saber da linguagem finalmente se efetiva pelo governo das populações.



[1] Cabe salientar que, para Foucault, há uma recusa da autoridade do autor sobre sua obra. Um texto pode ser utilizado como bem entender por aqueles que estão em contato com determinado escrito. O autor não é o que importa, mas antes a exterioridade dos escritos. MUCHAIL, Salma Tannus. “Michel Foucault e o dilaceramento do autor”, in Foucault, simplesmente. São Paulo, Edições Loyola, 2004, pp. 123-131.  
[2] Cf. FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. Paris, Gallimard, 1994, p. 397. 
[3] Cf. ARAÚJO, Inês Lacerda. Foucault e a crítica do sujeito. Curitiba, UFPR, 2008, p. 56. 
[4] DELEUZE, Gilles. Foucault. Tradução de Claudia Sant’Anna Martins. São Paulo, Brasiliense, 1991, p. 24.  
[5] FOUCAULT, Michel. Segurança, Território, População. São Paulo, Martins fontes, 2008, p. 103.