
O momento peremptório surge, devo entrar com “a respiração lenta”, como diz Dmitri ao Grinaldo. Porém nada adianta, técnica nenhuma dá cabo ao receio. Há duas dezenas de pessoas no teatro. Não vejo o palco, o que me dá a impressão de que estou sobre tal plataforma. A face exasperada duma atriz correndo por trás de cada um e colocando pequenas cestas ou sacolas no chão reflete o laranja fraco que as luzes proporcionam da direita para a esquerda, e deixam uma parte no quase breu. Dmitri traja uma roupa limpa de Seu Grinaldo, e este, uma camisa preta com dizeres em grego. A trupe senta-se conosco no piso alaranjado. Um ator negro, muito forte, com os olhos qual o que de um pai-de-santo virado no caboclo, ajoelha-se e joga as costas em direção aos pés até que sua cabeça os alcança. Uma atriz loura de belos olhos azuis ou verdes, porque não avisto direito, joga uma corrente por cima de todos e diz: “não a toquem, pois se machucarão”; o arame farpado serpenteia o chão conduzido por um habilidoso ator do qual só posso ver o vulto. Não há música, nenhum outro efeito senão a iluminação; Dmitri fecha os olhos, e Seu Grinaldo arreda o arame que roça seu joelho. De repente, a moça que está ao meu lado deita seu ombro direto no chão, assim como fazem as pessoas nas laterais dos ônibus. Todos fazem o mesmo. Estamos presos ao chão porque cercados pelo arame.
"O Ninho de Farpas" Capítulo "Coxias" Copyright 2009 Sérgio Lima Nastasi
"O Ninho de Farpas" Capítulo "Coxias" Copyright 2009 Sérgio Lima Nastasi
